OS MISTERIOSOS CAMINHOS DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

14 de novembro de 2017

Por Marcus Vinícius Andrade Silva(*)

A pesquisa hidrogeológica vem ganhando cada vez mais espaço, importância e necessidade junto às atividades de mineração, seja nas etapas de prospecção mineral, lavra ou descomissionamento de mina. Tal pesquisa engloba uma série de estudos, que envolvem desde a geologia básica dos terrenos até informações e dados mais complexos, como geologia estrutural e geoquímica.

Em se tratando dos aspectos físicos das águas subterrâneas, principalmente o sentido e a direção do fluxo hídrico subterrâneo preferencial, leva-se muito em consideração a questão estrutural do terreno (dobras, falhas, fraturas, etc.). Em termos práticos consideram-se na hidrogeologia 3 grandes tipos de aquíferos – poroso, fraturado e cárstico – que, em relação à complexidade, podem ser classificados da seguinte forma:

O maior desafio é definir com precisão o(s) caminho(s) preferencial(is) do fluxo para fins de alocação de poços, já que para tal atividade é necessário acertar bem no centro do alvo para se obter o melhor resultado em termos de produtividade e desempenho do poço.

A mineração possui um enorme acervo de estudos e informações técnicas sobre o subsolo dos terrenos, em função dos levantamentos geológicos para a prospecção mineral, o que facilita muito o trabalho dos hidrogeólogos. Porém, quando é necessário um trabalho de maior precisão e urgência em frentes de lavra ou mesmo em fundos de cavas podem surgir cenários inéditos, em função da complexidade geológica pois, normalmente, onde há maior volume e teor de minério, provavelmente houve maior ação tectônica no passado geológico. Como a pesquisa geológica costuma limitar-se às malhas de sondagem, sempre existem lacunas entre os furos, que serão preenchidas pela interpretação dos geólogos. Nesse momento podem surgir surpresas.

A figura acima ilustra uma situação onde o modelo geológico, que serviu de base para a construção do modelo hidrogeológico, contempla determinadas características estratigráficas e estruturais que não foram encontradas na íntegra durante as escavações. O cenário “A” apresenta um enorme cone de rebaixamento previsto em simulações matemáticas, proporcionando a liberação de um determinado volume de minério “seco”. Na prática, no entanto, encontrou-se o cenário “B”, onde não houve a devida interferência (encontro) dos cones de rebaixamento dos poços, gerando alguns transtornos operacionais para a lavra em função de um nível de água subterrânea (NA) aflorante e/ou muito raso no fundo da cava.

A partir desse cenário (B) hidrogeológico, iniciou-se uma revisão no modelo geológico de forma a contemplar novas estruturas que pudessem estar fazendo o papel de barreira hidráulica (camadas impermeáveis, superfície de topo rochoso mais elevado, etc.) e que não apareceram nas sondagens e, consequentemente, não constaram nos modelos geológicos e hidrogeológicos originais.

Surpresas como estas acabam fazendo parte da rotina operacional de uma mina e são muitas vezes corrigidas a partir do adensamento de malhas de sondagem (passando de 50m x 50m para 25m x 25m ou para malhas ainda mais refinadas como 12,5m x 12,5m), além dos mapeamentos geológicos de frentes de lavra e, em muitos casos, do uso de levantamentos geofísicos para subsidiar a interpretação geológica.

A geofísica é uma potente ferramenta usada para as pesquisas, principalmente hidrogeológicas já que, além ser um método mais rápido, também apresenta um custo muito inferior ao da sondagem. A figura a seguir apresenta um exemplo prático da comparação de um mesmo perfil gerado a partir da sondagem geológica (GEOLOGIA) e de um levantamento geofísico (GEOFÍSICA). É fácil notar o volume de informações extras obtidas a partir da geofísica que, além de identificar estruturas imperceptíveis pela sondagem, ainda permite a definição de um NA acompanhado de possíveis caminhos preferenciais para o fluxo hídrico subterrâneo (falhas, rocha alterada por percolação de águas, etc.), de forma a complementar a interpretação geológica:

 

Em momentos de crise hídrica, é muito comum que as pessoas interessadas em perfuração de poços ou escavação de cisternas recorram ao auxílio de uma espécie de geofísica popular, que é a radiestesia (a técnica da “varinha”). Através dela, radiestesistas (pessoas com alta capacidade sensitiva) dizem identificar fluxos preferenciais de águas subterrâneas por meio da emanação de ondas que, salvas as devidas proporções, poderiam ser comparadas à ondas eletromagnéticas: a “varinha” faria o papel de antena e o radiestesista de receptor das tais ondas.

Existem vários relatos sobre o uso dessa técnica em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, e ao longo de toda história da humanidade. Para muitos colegas, esse tipo de técnica para alocação de poços é uma afronta à ciência, porém há relatos de sucesso e acertos impressionantes na alocação de poços tubulares ou mesmo cisternas. Quando me perguntam se a radiestesia funciona, evito entrar em polêmicas, seguindo um velho ditado espanhol: “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”

 

(*) Marcus Vinícius Andrade Silva é Engenheiro Geólogo (UFOP), Hidrogeólogo (UFBA) e Engenheiro de Segurança do Trabalho (PUC MINAS). Atualmente é Hidrogeólogo Sênior da Vale Fertilizantes e professor de Gestão Estratégica de Recursos Hídricos do Instituto Minere

 

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