CARAJÁS 50 ANOS: ENTREVISTA COM O GEÓLOGO BRENO AUGUSTO DOS SANTOS

12 de setembro de 2017

Breno Augusto dos Santos

Por Tébis Oliveira

Hoje é impossível dissociar Carajás, no Sudeste do Pará (PA), da Vale. E, no entanto, há meio século – uma insignificância em termos de tempo geológico – essa associação não existia. Em maio de 1967, a US Steel, poderosa siderúrgica americana, chegou à região através da Companhia Meridional de Mineração, seguindo os passos da CODIN, subsidiária da concorrente Union Carbide, que já havia descoberto as jazidas de manganês da Serra do Sereno, próximas ao então futuro garimpo de Serra Pelada. O objetivo da Meridional, com seu programa de exploração geológica (BEP, na sigla em inglês), o primeiro de grande amplitude no País, também era a busca de manganês eletrolítico, para a fabricação de pilhas e baterias.

Um nome central nessa história é Breno Augusto dos Santos, na época recém demitido da ICOMI, produtora de manganês na Serra do Navio (AP), que foi chamado por Gene Tolbert, coordenador do BEP e seu professor no curso de Geologia Econômica na USP (Universidade de São Paulo), para chefiar a equipe de campo em Carajás. Em voos de helicóptero, um avanço tecnológico para a época, e através de fotografias aéreas do DNPM (Departamento Nacional de Pesquisa Mineral), imensas clareiras em meio à floresta amazônica chamaram a atenção dos geólogos da expedição. Num pouso para  reabastecimento do helicóptero em uma dessas clareiras, Breno vislumbrou a possibilidade de que houvesse ali um imenso depósito de minério de ferro. Era o dia 31 de julho de 1967 e começava então a descoberta de Carajás.

Na entrevista a seguir, Breno fala desses 50 anos e de como a geologia e, com ela, a própria mineração evoluíram no Brasil. Graças aos avanços tecnológicos, mas sem prescindir nunca do martelo, da lupa e da bússola dos geólogos. Ainda assim, diz ele, o país está bastante aquém de seu potencial mineral, poucas empresas do setor investem em pesquisa e a atividade de mineração continua sendo tratada como vilã da devastação e da poluição ambiental pela sociedade brasileira.

Breno explica ainda que, até por razões geológicas, a RENCA – Reserva Nacional do Cobre e Associados – jamais poderia se tornar uma nova Serra Pelada. Prevê também que existam 40 Bt de itabirito magnético e outras 500 Mt de hematitito em clareiras ainda não avaliadas, que serão as futuras minas de Carajás. Por fim, confere aos jovens geólogos a responsabilidade de  encontrar novos caminhos na construção do Brasil, que passa por um momento crítico de sua história.

 

 ITM: Quais eram os maiores desafios para realizar uma expedição como a da US Steel, na floresta amazônica, em 1967?

 Breno: Havia muitos desafios, entre eles o fato de enfrentar o desconhecido, em uma região com raras informações geológicas e sem qualquer infraestrutura. Em nível pessoal havia muitos medos: de voar em precários helicópteros e do encontro com índios arredios e animais ferozes. Tínhamos uma formação urbana e a Amazônia daquele tempo ainda era vista como o “Inferno Verde”. Os moradores do Xingu, com quem mantivemos contato logo no início, relatavam conflitos ocorridos com os caiapós e os assurinís, poucos anos antes de nossa chegada. Com o entusiasmo do trabalho, pelo desconhecido e pelas descobertas, esses medos se dissiparam.

 

ITM: O uso de helicópteros para o reconhecimento de áreas foi inédito?

Breno: Um ano antes, em 1966, o engenheiro Francisco Sayão Lobato, com a participação do geólogo João E.Ritter, utilizara um helicóptero no mapeamento da Província Estanífera de Rondônia. As primeiras empresas de táxi-aéreo, com helicópteros, surgiram para dar apoio à Petrobras, principalmente nos trabalhos iniciais da plataforma continental, e para a antiga Comissão Nacional de Energia Nuclear, que atuava basicamente no sudeste do Brasil. Na Amazônia, a Petrobras já utilizava helicópteros no transporte de equipes para as praças de sondagem. Mas, como equipamento rotineiro em trabalhos de exploração geológica, foi a primeira vez. E tudo estava para ser inventado e desenvolvido.

 

ITM: Quais eram as principais limitações desses helicópteros?

Breno: Os equipamentos que tínhamos eram bem rudimentares. Estavam entre os primeiros modelos fabricados pela Bell Helicopter, com motor a combustão tradicional. Até a gasolina que utilizavam, de 80 octanas, já não estava disponível no mercado e era necessário usar um aditivo para adaptar a gasolina comercial de 100 octanas. A principal limitação era a autonomia e a necessidade de locais para pouso. Por serem monomotores, não eram adequados para voos sobre a floresta. Dependendo da pane, um helicóptero consegue aterrissar com relativa segurança, desde que haja onde pousar. Tivemos vários incidentes desse tipo. Um deles, infelizmente, foi fatal, com a morte do geólogo Roque e do piloto Talma, da Votec.

 

ITM: Como essas limitações foram resolvidas?

Breno: No início, pensou-se em utilizar a técnica de rapel como metodologia de acesso. Mas a ideia foi abandonada pela segurança das equipes. Alguns anos depois, essa técnica chegou a ser usada com frequência pelo Projeto RADAM, no excepcional mapeamento realizado na Amazônia. Então, quanto à autonomia, passamos a transportar combustível adicional no bagageiro da aeronave, como foi feito no voo pioneiro, entre a ilha de São Francisco do Xingu e o Castanhal do Cinzento, que propiciou o pouso na Serra Arqueada.

 

ITM: E quanto aos locais de pouso?

Breno: Essa necessidade foi superada com a abertura de malhas regulares de helipontos. Para isso, partia-se de um local de acesso – um igarapé, um brejo, uma capoeira ou uma clareira natural – e iniciava-se a malha por onde seriam realizados os trabalhos de reconhecimento geológico. Por essa razão, as clareiras identificadas nas fotos aéreas, antes do interesse geológico, despertaram a nossa atenção como pontos de apoio para os voos com helicóptero.

 

ITM: Antes dos helicópteros, como era feito o trabalho geológico na região?

Breno: O pioneirismo dos primeiros exploradores da geologia da região foi muito mais arrojado que o nosso. Em 1922, o geólogo Avelino Ignácio de Oliveira, partiu de Altamira e subiu o Xingu até o rio Fresco. E, em 1933, o engenheiro Luiz Flores de Moraes Rego, partiu de Marabá, subindo o rio Itacaiúnas até a confluência com o rio Pium. Ambos navegaram com relativa proximidade às clareiras com depósitos de minério de ferro. Avelino, dos depósitos de São Félix; Moraes Rego, da fabulosa clareira S11 de Carajás, e registrou ter visto “morros de topo plano onde se encontram campos geraes”.

 

ITM: Mas não desembarcaram em terra?

Breno: Não. Assim como os geólogos do Projeto Araguaia, por razões históricas, técnicas ou financeiras, eles limitaram os trabalhos de reconhecimento geológico à calha dos grandes rios, sem acesso às formações sedimentares e vulcânicas mineralizadas. O manganês de Buritirama poderia até ter sido descoberto então, pois há blocos de minério nas proximidades das margens do rio Itacaiúnas.

 

ITM: O que você acha dos drones, que têm sido cada vez mais utilizados na prospecção mineral?

 Breno: Acredito que os drones vão ter, na fotografia e nos levantamentos aéreos, e até nos transportes, o mesmo significado que a Internet passou a ter nas comunicações. Ainda não conheço empresa no Brasil que os esteja utilizando, como apoio, para os reconhecimentos e mapeamentos geológicos. Algumas minas, sim. Se estivesse na ativa, já os estaria usando. Qualquer conhecimento científico avança com novas hipóteses de trabalho e novas tecnologias, que interagem entre si. A exploração geológica não foge desse princípio.

 

ITM: Foi assim em Carajás?

Breno: Sim. As descobertas em Carajás sempre dependeram dos objetivos, das ideias e da tecnologia utilizada. Nos tempos pioneiros, o helicóptero foi o grande avanço tecnológico, pois buscavam-se depósitos minerais aflorantes, de manganês, ferro ou níquel, que seriam descobertos por quem primeiro chegasse. As serras do Cinzento e do Salobo, onde está a principal mina de cobre do Brasil, foram prospectadas pela Meridional em 1968, com o apoio do helicóptero, mas buscando apenas ocorrências de blocos de óxidos de manganês, com o auxílio do martelo e da bússola. Se fosse usada a tecnologia de amostragem de sedimentos de corrente, esses depósitos de cobre e ouro teriam sido descobertos bem antes.

 

ITM: Quando ocorreram novos avanços tecnológicos na geologia?

Breno: Para avançarmos no segundo ciclo de descobertas, a partir da década de 70, houve necessidade de novas ideias e novas tecnologias, mas nunca abandonando as práticas anteriores. A grande inovação foi uso sistemático da amostragem geoquímica de sedimentos de corrente. Assim surgiram as primeiras descobertas de depósitos de cobre e ouro de Carajás, com destaque para o Salobo, Pojuca e Gameleira.

O terceiro ciclo, a partir da década de 90, foi marcado pelo apoio de softwares específicos no tratamento dos dados geológicos, integrando várias informações, e pelo uso sistemático da geofísica aérea. Com isso surgiram novos depósitos de cobre e ouro, destacando-se o do Sossego, do Cristalino e do Alemão, que foi a primeira descoberta de depósito não aflorante de Carajás.

O novo ciclo de descobertas está na dependência de hipóteses inovadoras de trabalho, bem como de tecnologias geofísicas mais atualizadas, que permitam a descoberta de depósitos não aflorantes. O preceito básico será sempre a criatividade e uma mente aberta para novas ideias e tecnologias, que possibilitem o avanço do conhecimento geológico, mas sempre sem esquecer que a bússola, a lupa e o martelo devem continuar como companheiros do geólogo de exploração.

 

ITM: Como surgiu a prática de documentar todos os trabalhos de campo?

Breno: Nasci em uma família que tinha o costume de documentar momentos com a fotografia, desde os tempos da “câmera caixão”. Assim, a fotografia passou a ser parte da minha rotina de vida, nos passeios e nas viagens.

No final da adolescência, consegui a primeira câmera 35 milímetros, uma Assahi Flex. Nos tempos do curso de Geologia na USP, na Alameda Glete, já era um dos principais fotógrafos, que documentava as excursões da turma. Mas os filmes eram relativamente caros e sempre ficavam restritos aos preto e branco, rebobinados. O amor e a prática da fotografia foram levados para a o exercício da profissão. Na ICOMI, adquiri de um estagiário japonês, a minha primeira Canon. Passei, então, para os slides coloridos, bem mais caros, que julgava fossem eternos. Infelizmente, no nosso clima tropical, a maioria deteriorou-se com fungos.

 

ITM: O que foi feito desse acervo?

Breno: Em 1980, resolvi criar uma fototeca, com o apoio da bibliotecária Ana Margarida, da Docegeo, em Belém (PA), passando para o papel todas as imagens da Meridional e da Docegeo, e adotando essa prática em relação aos demais geólogos e técnicos da empresa. Foram criados grandes álbuns, com todas as fotos, acompanhados por memorais descritivos.Hoje, apenas uma pequena parte da duplicata dessa coleção está comigo e tenho tentado, aos poucos, transformá-la em um acervo digital, com cuidadosa recuperação das imagens danificadas. A coleção completa encontra-se com a Vale, que em várias ocasiões prometeu digitalizá-la. Nessa coleção está um conteúdo significativo da história da geologia de Carajás, e também de parte da Amazônia, desde 1967 até a privatização da empresa, em 1997.

 

ITM: Voltando aos helicópteros, o ponto de partida para a descoberta de Carajás foi o pouso em uma clareira na Serra Arqueada?

Breno: A confirmação da natureza hematítica das clareiras de Carajás passou por etapas sucessivas. A partir do pouso na Serra Arqueada, no dia 31 de julho de 1967, quando a correlação com as demais clareiras ainda parecia um sonho absurdo, difícil de acreditar. Na comunicação telefônica, no dia 2 de agosto, através de uma cabine da Radional, em Belém, quando acidentalmente foi batizada a Serra Arqueada, houve um certo desalento, pois Gene Tolbert, meu chefe na Meridional, não se mostrou entusiasmado com a possibilidade das clareiras corresponderem a imensos depósitos de minério de ferro, e determinou que a busca de manganês continuava o objetivo da expedição.

 

ITM: O que aconteceu então?

Breno: A curiosidade geológica persistia e havia o risco de que as grandes clareiras fossem o resultado da existência de outro tipo de rocha, como por exemplo platôs estéreis de arenito. Assim, em 9 de agosto, contando com a habilidade do saudoso piloto Adão Coelho de Barros, com seu pequeno Cessna 170, realizei voos rasantes sobre as clareiras da Serra Norte confirmando a sua semelhança com a cobertura de canga da Serra Arqueada.

Tolbert, por sua vez, com uma atitude ousada, conseguiu deslocar um DC3 da LASA, que fazia levantamento magnetométrico para a Petrobras, no Maranhão, para voos em Carajás e no Amapá, entre 18 e 20 de agosto.

 

ITM: Para realizar o mesmo tipo de levantamento?

Breno: Sim. Nosso objetivo era verificar se havia algum nível magnético, associado aos depósitos de Serra do Navio e do Sereno, que pudesse servir de guia para a prospecção de novas ocorrências de manganês.  Embora o ferro não fosse o objetivo, quando as linhas de voo passavam sobre as clareiras de Carajás, a agulha do magnetômetro saía da escala, tal o valor da anomalia. Mais uma prova da possibilidade de grandes depósitos de minério de ferro. No final de agosto, os três geólogos da equipe fizeram o reconhecimento das clareiras da Serra Norte e da Clareira S11, na Serra Sul, confirmando o que era esperado: a ausência da floresta era devida à cobertura com canga hematítica.

A prova final foi obtida no início de 1968, com a abertura de uma galeria de pesquisa sob a canga, no anfiteatro da clareira N1. Foi atravessado hematitito de alto teor.

 

ITM: Você já chegou a dizer que Serra Arqueada é o maior depósito de itabirito de Carajás? Porquê?

Breno: A pesquisa inicial, realizada pela Amazônia Mineração (Vale e USS) determinou recursos totais de 18 bilhões de toneladas, de minério hematítico de alto teor, nas serras Norte, Sul, Leste e de São Félix. Não houve estimativa sobre o protominério jaspelítico e nem das ocorrências de itabirito. Na Província Mineral de Carajás apenas algumas das inúmeras ocorrências de itabirito magnetítico foram avaliadas.  A principal é a própria Serra Arqueada, com cerca de 85 km de extensão, desde as cabeceiras do igarapé Carapanã até o rio Pium, nos morrotes dos Três Irmãos. Percorri várias vezes essa área, a maior parte dela pertencente à Reserva Indígena do Cateté, em voos de helicóptero, verificando os afloramentos de itabirito e, em alguns locais, clareiras e depósitos de hematitito. Por sua extensão, pode-se estimar um potencial da ordem 40 Bt de itabirito magnetítico e 500 Mt de hematitito. No próximo século, desde que o minério de ferro continue sendo utilizado, os itabiritos serão os recursos de Carajás, onde estarão as suas principais minas.

 

ITM: Saindo da Meridional, como foi sua experiência na Docegeo, que se tornou a maior empresa de pesquisa mineral do Brasil?

Breno: Quando a Docegeo foi criada, em 1971, todas as grandes empresas de mineração possuíam organizações menores, dedicadas à exploração geológica. Essa prática era adotada para que houvesse maior flexibilidade administrativa e operacional, em um trabalho não rotineiro como o de uma grande mineradora, e que na maioria dos casos exige rápidas decisões. Não resta dúvida que o que mais marcou foi a qualidade da equipe da Amazônia. Dificilmente poderá haver outro ambiente de trabalho tão bom como aquele, particularmente nos anos 70, e com tantas realizações. Era fácil achar depósitos minerais com aquela equipe.

 

ITM: Quais dessas realizações você destacaria?

Breno: Sem dúvida, a descoberta dos depósitos de cobre e ouro de Carajás e dos depósitos de bauxita de Paragominas e Almeirim, introduzindo uma cultura na empresa, que contribuiu para que a Vale chegasse a ser também uma produtora de cobre, ouro, alumina e alumínio. A descoberta do ouro de Andorinhas e do Igarapé Bahia, também foram marcos importantes. Além da participação na gestão do garimpo de Serra Pelada.

 

ITM: A CPRM (Serviço Geológico do Brasil) pode ter sua atuação comparada à da Docegeo?

 Breno: As atribuições de um Serviço Geológico, como a CPRM, são bem diferentes e mais abrangentes que as de uma empresa de exploração e pesquisa geológica. A sua função específica não é a descoberta e avaliação de depósitos minerais, mas sim a de executar mapeamentos geológicos e levantamentos básicos, geoquímicos e geofísicos, fornecendo instrumentos que facilitem a busca de depósitos minerais pelas empresas, mas que também atendam a outros setores da sociedade, como planejamento da ocupação do solo, gestão da água, construção de estradas, planejamento urbano, etc. Nos últimos anos a CPRM tem tentado atingir essas metas, embora o Brasil ainda tenha um grande atraso em relação aos levantamentos geológicos básicos.

 

ITM: Qual foi o papel da Docegeo no garimpo de Serra Pelada?

Breno: A Docegeo da Amazônia, da qual era o gerente, tinha a responsabilidade de fazer a pesquisa do depósito, por estar na área do Decreto de Lavra de Serra Leste e, ao mesmo tempo, comprar, fundir, transportar, analisar e encaminhar à Caixa Econômica Federal, em Belém, o ouro adquirido dos garimpeiros, em nome do Banco Central. Além disso, era responsável por toda a infraestrutura dentro do garimpo, como energia elétrica, telefonia, estradas e pista de pouso, com recursos reembolsados pelo Banco Central. Essa atividade era integralmente acompanhada pela Agência Central do SNI (Serviço Nacional de Informações), em Brasília (DF), ligada ao presidente João Figueiredo, e tinha como seu representante no garimpo, nos primeiros anos, o então major Sebastião Curió, um dos principais agentes que combateram a Guerrilha do Araguaia.

 

ITM: O final do garimpo estava previsto?

Breno: Tudo havia sido acertado para que quando o garimpo acabasse naturalmente, a Vale implantaria a sua mineração. Para isso, estávamos fazendo a pesquisa geológica e a Vale iniciando os estudos de planejamento da lavra. Era sabido que os garimpeiros abandonavam as ocorrências minerais quando a atividade manual se tornava impossível. Isso de fato aconteceu no final de 1981, quando a cava foi inundada pelo lençol freático. Ainda assim, no início de 1982, recebi um telefonema de um coronel do SNI determinando, por ordem do presidente Figueiredo, que a Docegeo contratasse uma empresa de terraplanagem para rebaixar o garimpo, preparando uma cava para a lavra, construir uma estrada de acesso e nova pista de pouso. Até então, o garimpo havia sido tratado como um colégio militar, com muita disciplina, hasteamento diário da bandeira, ao som do hino nacional e uma certa harmonia social no tratamento dos garimpeiros. Inclusive, só podiam permanecer no garimpo os que lá estavam por ocasião da intervenção do SNI, em maio de 1980, ao redor de 15 mil pessoas.

 

ITM: Em 1982, esse quadro mudou?

Breno: Sim. O garimpo perdeu a sua virgindade e transformou-se em um curral eleitoral, na tentativa de eleger Sebastião Curió como deputado federal, e conseguir votos para o candidato da Arena (partido de apoio ao governo militar), Oziel Carneiro como governador do Pará. Foi, então, liberada a entrada de novos garimpeiros, que chegaram a cerca de 60 mil, para ampliar o número de eleitores. Como consequência, Curió foi eleito, mas o candidato do MDB (partido de oposição) a governador, Jader Barbalho, venceu as eleições. Com a ampliação da população, aumentaram os conflitos entre os garimpeiros e a Docegeo e vários adiamentos do término do garimpo foram conseguidos sob pressão, com Curió atuando como deputado federal. Em maio de 1984, a situação tornou-se insustentável e solicitei ao SNI reforço para a segurança. Ante a negativa, com os dois helicópteros da empresa, em apenas um dia, retirei toda equipe, passando a compra do ouro a ser feita diretamente por funcionários da Caixa.

 

ITM: Os garimpeiros permaneceram lá?

Breno: Sim e passaram a lutar para transformar Serra Pelada em uma reserva garimpeira, desmembrando-a do Decreto de Lavra da Vale. Com o apoio de Curió, que passou a empregar as táticas de guerrilha que antes combatera, fechando estradas e estimulando saques, e provocando uma rebelião na região, com o enfretamento com a Policia Militar do Pará sobre a ponte do rio Parauapebas, ante a tentativa de invasão do canteiro de obras do projeto ferro, da Vale. Com o apoio do presidente Figueiredo, o Congresso Nacional aprovou a criação da reserva garimpeira até a cota pesquisada pela Docegeo, sendo a Vale indenizada pelo ouro contido, ao redor de 27 toneladas. Foi um bom negócio, pois o custo da lavra foi zero. Hoje, apesar de terem havido outras tentativas de pesquisa e de lavra, inclusive pela própria Vale, o que resta em Serra Pelada é uma cava repleta de água.

 

ITM: Como você analisa a extinção da RENCA?

Breno: Toda uma mística fantasiosa está sendo desenvolvida pela mídia e pela opinião pública a respeito da RENCA. Na realidade, a Reserva Nacional do Cobre e Associados jamais deveria ter sido criada. Ela foi a saída política, encontrada pelo governo da época, para superar o conflito de interesses pelos direitos minerários de pesquisa, entre a antiga BP Mineração e a Vale, pela resistência da gestão da Docegeo em renunciar os seus requerimentos de alvará de pesquisa. Até a sua denominação foi infeliz, pois estabeleceu uma “reserva de cobre” onde, até o presente, não foi encontrada sequer uma amostra de minério de cobre. Essa denominação cairia melhor na Província Mineral de Carajás, onde de fato há uma grande fertilidade de ocorrências de cobre. O que está sendo revogado, sem afetar os direitos das reservas florestais e indígenas, que posteriormente foram criadas no seu interior, é o impedimento de se fazer exploração e pesquisa geológica nas áreas onde isso é possível. Eventual mineração só poderá ocorrer no caso em que alguma das pesquisas geológicas tenha sucesso.

 

ITM: Você vê riscos de surgir uma nova Serra Pelada no local?

Breno: A possibilidade de que uma nova Serra Pelada ocorra no seu interior é bastante remota. Na Província Mineral de Carajás houve diversas fases de intensa atividade hidrotermal, que foram responsáveis pelos depósitos de cobre e ouro, bem como pelo ouro de Serra Pelada. Não há evidências de que isso tenha ocorrido nas áreas da RENCA, e que possam existir os fantásticos aglomerados hidrotermais de ouro, denominados como “pepitas” pelos garimpeiros, que provocaram a corrida do ouro de Serra Pelada. Os garimpos que lá existem são aluvionares, como ocorrem em quase todas áreas pré-cambrianas da Amazônia. É bom que se registre que a existência da RENCA não impediu a atividade garimpeira. O que impede a atividade garimpeira é a fiscalização.

 

ITM: Como você vê as alterações ao Código Nacional de Mineração?

Breno: Embora o Brasil tenha um grande potencial para o desenvolvimento mineiro, e a mineração tenha dado grande contribuição para o desenvolvimento regional, assim como para a economia do País, notadamente no Quadrilátero Ferrífero e na Província Mineral de Carajás, a atividade ainda é vista pela mídia e pela opinião pública, como o “patinho feio” do desenvolvimento. O retrato é o de uma atividade que só deixa buracos, e o apito do trem, e que é altamente poluidora. Infelizmente, o trágico acidente da Samarco veio contribuir para essa imagem. Isso não ocorre em países com idêntico potencial mineral, como o Canadá e a Austrália, onde a população entende que a mineração pode ser de fato um dos alicerces do desenvolvimento econômico e social, e com sustentabilidade ambiental. Assim, qualquer iniciativa que venha apoiar o desenvolvimento mineiro, seguindo o modelo dos países com mineração mais desenvolvida, e dando maiores garantias aos investidores, será sempre benéfica e estimulante para o setor. Inclusive, nos tempos da Secretaria de Minas e Metalurgia, tentei atrair a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro para o modelo canadense de Toronto, visando particularmente o desenvolvimento de empresa juniores de geologia e de mineração. Dois diretores da Bolsa chegaram a viajar para o Canadá e voltaram entusiasmados com a ideia. Infelizmente, e por razões que desconheço, não foi demonstrado grande interesse no contato que tiveram com o IBRAM, e a iniciativa foi abandonada.

 

ITM: Em sua opinião, quais são os principais obstáculos à pesquisa mineral no Brasil?

 Breno: A tentativa desastrada de se tentar mudar o marco regulatório da mineração, copiando o modelo existente para as bacias de petróleo, com as quais a pesquisa mineral não tem qualquer semelhança, causou grande atraso no desenvolvimento do setor, pois as empresas ficaram durante alguns anos impedidas de novos requerimentos de pesquisa, sequer obtendo a renovação dos alvarás existentes. Se é verdade que toda legislação merece ser constantemente aprimorada, e o Código de mineração não foge dessa realidade, a tentativa de mudança radical causou grande dano ao desenvolvimento da mineração brasileira. Além da insegurança jurídica, as rigorosas exigências ambientais para os simples programas de pesquisa, tanto por órgãos federais como estaduais, às vezes com conotações políticas, são outros complicadores para o setor. Há um constante conflito entre os prazos de vigência dos alvarás de pesquisa e os da licença ambiental, cuja demora na concessão muitas vezes inviabiliza a pesquisa de pequenas e grandes empresas de mineração. A sociedade brasileira, através de seus representantes, tem que decidir se o potencial mineral do País deve, ou não, ser utilizado para o seu desenvolvimento econômico e social, com sustentabilidade ambiental, criando uma legislação que não impeça a evolução do seu conhecimento, fundamental e necessário para novos empreendimentos mineiros.

 

ITM: Qual é sua avaliação do estágio atual da mineração brasileira?

Breno: A mineração brasileira ainda está aquém da realidade do potencial mineral do País. Somos grandes produtores de algumas commodities minerais – ferro, alumínio, manganês, nióbio e rochas ornamentais, e estamos começando a nos desenvolver em relação ao cobre. Mas temos poucas empresas de mineração atuando efetivamente na pesquisa mineral. É estranho o fato de que países com grande tradição mineira e onde o conhecimento de seu subsolo está bem mais evoluído, continuem investindo mais que o Brasil.

Creio que isso é fruto da ausência levantamentos geológicos básicos adequados para atrair investidores, bem como de uma legislação que dê segurança aos investimentos.

 

Perfil:

Nasceu em: Olímpia (SP), em 01/07/1940.

Mora em: Niterói (RJ)

Trajetória Acadêmica: Geólogo, turma de 1963 da Universidade de São Paulo

Trajetória Profissional: ICOMI (AP), como geólogo (1964) e gerente do Departamento de Mineração (1964/67). Cia.Meridional de Mineração – United States Steel, (PA), como gerente do Projeto de Pesquisa Sudeste do Pará (1967/69) e gerente regional da Amazônia (1969/71). Rio Doce Geologia Mineração – Docegeo (CVRD, hoje Vale): gerente regional do Distrito Leste na Bahia (1971); gerente regional do Distrito Amazônia – PA (1972/74); diretor técnico (1984/93) e diretor-presidente e vice-presidente do Conselho de Administração (1993/94 e 1995/97) – RJ. Ministério de Minas e Energia – MME (DF), como secretário de Minas e Metalurgia (1994/95). Cia.de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) – RJ, como membro do Conselho de Administração (1996/2000). Fundação Getúlio Vargas (FGV) – SP, como consultor para projeto do BNDES relativo a Carajás (2003/14). Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como consultor para projeto relativo a Carajás (desde 2015) e MME), como membro do Conselho de Secretários de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (desde 2016)

Família: Minha esposa, Yolanda Oliveira dos Santos, 5 filhos (Sandra, Tânia, Márcia, Paulo e Paula) e 6 netas (Letícia, Camila, Marina, Kime e Laura)

Hobby: Além de Carajás, viagens, fotografia e jardinagem

Um ídolo: Descartando os da infância, tive vários gurus na vida profissional: o engenheiro Manoel Rico Campos, meu chefe na ICOMI; o geólogo Gene Tolbert, meu professor e chefe na Meridional e na Terraservice (Docegeo); o engenheiro e geólogo Acyr Ávila da Luz, grande amigo, e o geógrafo Aziz Ab’ Saber, com quem tive a honra de compartilhar alguns momentos

Maior realização: Ter acompanhado o desenvolvimento de Carajás do seu início até hoje. No Brasil, ninguém teve essa oportunidade, e raros geólogos a tiveram na geologia mundial

Maior decepção: Ter visto a sociedade brasileira, por incompetência política, educacional, empresarial e tecnológica, desperdiçar a oportunidade de um desenvolvimento integrado da Província Mineral de Carajás, utilizando as facilidades logísticas criadas pela mineração. Foi feita uma ocupação desordenada, sem zoneamento ambiental e com predomínio da grilagem

Uma definição para a mineração: Tem sido essencial para o desenvolvimento material da humanidade, assim como a agricultura o foi para sua evolução física. Na nossa Amazônia, a mineração é tratada como a vilã da devastação e da poluição. No entanto, uma grande mina, como as de Carajás, ocupa uma área de algumas dezenas de quilômetros quadrados, enquanto o agronegócio, particularmente a pecuária, já devastou mais de 500 mil km2 da floresta amazônica. Em imagens da Província Mineral de Carajás, no Google Earth, é possível constatar que só restaram as reservas criadas e conservadas pela Vale. Além disso, toda a infraestrutura da região – energia, ferrovia e estradas -, foi criada em função da mineração

Um “conselho” a jovens geólogos: O sucesso da equipe é mais gratificante que o sucesso pessoal. Fujam dos paradigmas: o trabalho sempre pode ser sempre aprimorado, com novas ideias e tecnologias. Acreditem que há muitos depósitos minerais a serem descobertos no Brasil. Nosso nível de conhecimento geológico é o mesmo em que os países com tradição mineira estavam há 40 anos. Vivemos hoje um dos momentos mais críticos de nossa história, com descrença nas instituições e nos valores da Nação, e de competência duvidosa como sociedade, fruto da decadência do nosso sistema educacional nos últimos 40 anos.Como parte da elite profissional deste País, vocês têm a responsabilidade de encontrar novos caminhos na construção da Nação, com sustentabilidade no desenvolvimento socioeconômico e ambiental

 

 

Principais Trabalhos Publicados:

“AMAZÔNIA – Potencial Mineral e Perspectivas de Desenvolvimento” – 1981 (“Prêmio Jabuti” da Câmara Brasileira do Livro, na categoria de Ciências Naturais, 1982).

“Recursos Minerais de Carajás” – 1986 (em “CARAJÁS” – Desafio Político, Ecologia e Desenvolvimento”).

“Carajás, história e perspectivas” – 1986 (em “Espaço, Ambiente e Planejamento”).

“Conhecimento e uso dos recursos minerais da Amazônia” – 1986 (em “Espaço, Ambiente e Planejamento”).

“Carajás: Patrimônio Nacional” – 1987 (em “A Questão Mineral da Amazônia”)

“Potencial Mineral da Amazônia para o Século XXI e os Problemas Ambientais Relacionados”– 1996 (em “Uma estratégia latino-americana para a Amazônia”).

“The Mineral Resources of Amazonia” – 1998 (em “AMAZONIA – Heaven of a New World”).

“Die Mineralressourcen Amazoniens” – 1999 (em “AMAZONIEN – Himmel der Neuen Welt”).

“Recursos Minerais da Amazônia” – 2002 (em “Estudos Avançados 16 (45)).

“Contribuição para o Desenvolvimento da Exploração Geológica e da Mineração Brasileiras” – 2007 (em “GEOLOGIA USP – 50 Anos”)

“Pelas Pedras do Caminho Mineral”- 2010 – Editora Signus – Organizador.

Faça AQUI o download com os destaques da entrevista, publicada na edição 68 da revista In The Mine

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